sábado, 2 de janeiro de 2016

Das Vantagens de Ser Bobo


O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando."
Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia.
O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.
Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranqüilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu.
Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus?"
Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!
Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.
O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.
Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!
Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.
Clarice Lispector

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Chegou ao fim. Acabou. O ano virou a esquina. Não volta nunca mais.
Assim como as oportunidades perdidas, os beijos não dados e as palavras não ditas que nele ficaram e nele naufragaram no limbo do passado.
Para deixar saudade. Para deixar arrependimento. Para deixar alívio. Para deixar.
O que foi feito, foi feito. O que foi sentido, foi sentido. O que foi vivido, foi vivido.
O que não foi, virou poeira.
E da poeira, virou pretérito.
E do pretérito, virou esquecimento.
Enquanto um ano dá adeus, o outro já nos atropela.
E ele chega sem pedir, ele chega sem permissão, ele chega sem bater na porta.
Ele chega sem que tenhamos tido tempo de engolir o último.
Sem pausa, sem recesso, sem férias.
365 chances velhas são perdidas para que 365 novas sejam ofertadas.
E sabe o que eu espero do ano novo?
Eu não espero nada.
Eu espero muito é de mim mesma.
Eu espero doar sem me preocupar se vou receber.
Eu espero ser para o mundo sem me preocupar se o mundo me será de volta.
Eu espero ser a melhor versão de mim mesma.
Eu espero ser a pessoa que o meu cachorro acha que eu sou.
Eu espero que os meus braços sejam grandes o suficiente para abraçarem as oportunidades que a vida me atirar.
Eu espero ser sábia para conseguir dar valor ao que realmente for de valor e me desligar do que não.
Eu espero ser esponja para o que for amor, luz e calmaria.
Eu espero ser repelente para o que for nebuloso, amargo e baixo.
Eu espero ser cura. Mas também vício.
Eu espero ser santa. Mas também puta.
Eu espero ser céu. Mas também inferno.
Eu espero ser mar. Mas também lava.
Eu espero ser muitas enquanto for só eu mesma.
Eu espero resolver as questões que deixei em aberto.
Eu espero fechar os ciclos de ontem para dar espaço aos de amanhã.
Eu espero deixar o passado passar.
Eu espero fazer as pazes comigo mesma.
Eu espero me deixar carregar pela correnteza da vida.
Eu espero que existam segundas chances.
Mas espero não precisar delas.
Eu espero seguir em frente.
Mas espero saber que o que importa é a direção e não a velocidade.
Eu espero que não esperem.
De mim Por mim.
Eu espero saber esperar.
Dos outros. Pelos outros.
E sabendo esperar, eu espero nada esperar.
Assim eu espero.



Marina Barbiere

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Família é prato difícil de preparar


São muitos ingredientes.
Reunir todos é um problema...Não é para qualquer um.
Os truques, os segredos, o imprevisível.
Às vezes, dá até vontade de desistir...
Mas a vida... sempre arruma um jeito de nos entusiasmar e abrir o apetite.
O tempo põe a mesa, determina o número de cadeiras e os lugares.
Súbito, feito milagre, a família está servida.
Fulana sai a mais inteligente de todas.
Beltrano veio no ponto, é o mais brincalhão e comunicativo, unanimidade.
Sicrano, quem diria?
Solou, endureceu, murchou antes do tempo.
Este é o mais gordo, generoso, farto, abundante.
Aquele, o que surpreendeu e foi morar longe. Ela, a mais apaixonada.
A outra, a mais consistente...
Já estão aí? Todos? Ótimo.
Agora, ponha o avental, pegue a tábua, a faca mais afiada e tome alguns cuidados.
Logo, logo, você também estará cheirando a alho e cebola.
Não se envergonhe de chorar.
Família é prato que emociona.
E a gente chora mesmo.
De alegria, de raiva ou de tristeza.
Primeiro cuidado:
temperos exóticos alteram o sabor do parentesco.
Mas, se misturadas com delicadeza, estas especiarias, que quase sempre vêm da África e do Oriente e nos parecem estranhas ao paladar tornam a família muito mais colorida, interessante e saborosa.
Atenção também com os pesos e as medidas.
Uma pitada a mais disso ou daquilo e, pronto:
é um verdadeiro desastre.
Família é prato extremamente sensível.
Tudo tem de ser muito bem pesado, muito bem medido.
Outra coisa:
é preciso ter boa mão, ser profissional.
Principalmente na hora que se decide meter a colher.
Saber meter a colher é verdadeira arte.
As vezes o ídolo da família, o bonzinho, o bola cheia que sempre ajudou azedou a comida só porque meteu a colher.
O pior é que ainda tem gente que acredita na receita da família perfeita.
Bobagem.
Tudo ilusão.
Família é afinidade, é à Moda da Casa.
E cada casa gosta de preparar a família a seu jeito.
Há famílias doces.
Outras, meio amargas.
Outras apimentadíssimas.
Há também as que não têm gosto de nada, seria assim um tipo de Família Dieta, que você suporta só para manter a linha.
Seja como for,
família é prato que deve ser servido sempre quente, quentíssimo.
Uma família fria é insuportável, impossível de se engolir.
Enfim, receita de família não se copia, se inventa.
A gente vai aprendendo aos poucos, improvisando e transmitindo o que sabe no dia a dia.
A gente cata um registro ali, de alguém que sabe e conta, e outro aqui, que ficou no pedaço de papel.
Muita coisa se perde na lembrança.
O que este veterano cozinheiro pode dizer é que, por mais sem graça, por pior que seja o paladar, família é prato que você tem que experimentar e comer.
Se puder saborear, saboreie.
Não ligue para etiquetas.
Passe o pão naquele molhinho que ficou na porcelana, na louça, no alumínio ou no barro.
Aproveite ao máximo.
Família é prato que, quando se acaba, nunca mais se repete
Família:
Feliz quem tem!!
sabe curtir , aproveitar e valorizar.....


Trechos do livro "O Arroz de Palma" de Francisco Azevedo

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

CASAMENTO, MODO DE USAR


Case-se com alguém que adore te escutar contando algo banal como o preço abusivo dos tomates ou que entenda quando você precisar filosofar sobre os desamores de Nietzsche.
Case-se com alguém que você também adore ouvir. É fácil reconhecer uma voz com quem se deve casar; ela te tranquiliza e ao mesmo tempo te deixa eufórico como em sua infância, quando se ouvia o som do portão abrindo, dos pais finalmente chegando. Observe se não há desespero ou insegurança no silêncio mútuo, assim sendo, case-se.
Se aquela pessoa não te faz rir, também não serve para casar. Vai chegar a hora em que tudo o que vocês poderão fazer, é rir de si mesmos. E não há nada mais cruel do que estar em apuros com alguém sem espontaneidade, sem vida nos olhos.
Case-se com alguém cheio de defeitos, irritante que seja, mas desconfie dos perfeitinhos que não se despenteiam. Fuja de quem conta pequenas mentiras durante o dia. Observe o caráter, antes de perceber as caspas.
Case-se com alguém por quem tenha tesão. Principalmente tesão de vida. Alguém que não lhe peça para melhorar, que não o critique gratuitamente, alguém que simplesmente seja tão gracioso e admirável que impregne em você a vontade de ser melhor e maior, para si mesmo.
Para se casar, bastam pequenas habilidades. Certifique-se de que um dos dois sabe cumpri-las. É preciso ter quem troque lâmpadas e quem siga uma receita sem atear fogo na cozinha; é preciso ter alguém que saiba fazer massagem nos pés e alguém que saiba escolher verduras no mercado.
E assim segue-se: um faz bolinho de chuva, o outro escolhe bons filmes; um pendura o quadro e o outro cuida para que não fique torto. Tem aquele que escolhe os presentes para as festas de criança e aquele que sabe furar uma parede, e só a parede por ora. Essa é uma das grandes graças da coisa toda, ter uma boa equipe de dois.
Passamos tanto tempo observando se nos encaixamos na cama, se sentimos estalinhos no beijo, se nossos signos se complementam no zodíaco, que deixamos de prestar atenção no que realmente importa; os valores. Essa palavra antiga e, hoje assustadora, nunca deveria sair de moda.
Os lábios se buscam, os corpos encontram espaços, mas quando duas pessoas olham em direções diferentes, simplesmente não podem caminhar juntas. É duro, mas é a verdade. Sabendo que caminho quer trilhar, relaxe! A pessoa certa para casar certamente já o anda trilhando. Como reconhecê-la? Vocês estarão rindo. Rindo-se.

(Diego Engenho)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

http://yogui.co/10-estrategias-de-manipulacao-em-massa-utilizadas-diariamente-contra-voce/

terça-feira, 8 de dezembro de 2015


A Estrela do Defeito Pessoal
O excesso de ‪#‎estrelas‬, que ‪#‎transforma‬ ‪#‎virtudes‬ em defeitos, afetando o temperamento do nato, por mais bondoso que ele seja.
 Há milhões de pessoas tão bondosas, caridosas e que se sacrificam pelos outros. Mas a bondade levada aos extremos, pode envenenar os egos da pessoa, e, muitas vezes, por trás de uma grande bondade, esconde-se nada mais que o defeito da manipulação, onde o nato consegue dominar a todos, subjugando-os numa dependência indesejável.
 E da mesma forma, uma pessoa pode trabalhar triplicado, apenas para ter o direito de cobrar e exigir dos outros a mesma performance, porque na verdade, o seu maior defeito é torturar as pessoas através de exigências e cobranças. Outros, oferecem a face da bondade para os menos favorecidos, escondendo defeitos muito piores.
 A bondade existe e de fato dizem — fulano tem um lado muito bom, mas em compensação é surpreendente, como pode evidenciar tantos defeitos, gerados na própria bondade.
O temperamento que transforma virtudes em defeitos, atrai os maus fluidos e são maus fluidos de todas as espécies, mas o principal é o fluido da desarmonia interna e externa.
Somente a firmeza de propósito e uma boa orientação, podem auxiliá-lo a transmutar e a se desviar dos maus fluidos, que certamente poderão turvar o seu discernimento, colocando obstáculos em seu desenvolvimento material, psicológico e espiritual.
As virtudes de amor e bondade, doçura e afabilidade, amor ao silêncio e à solidão, vocação musical e mística, podem ser transformadas no defeito da imaginação descontrolada e daí surgem os seguintes egos: irritação, descontentamento contínuo, superstição, criação de paraísos artificiais e fanatismo.
De repente você pode achar que não tem nada de especial, mas todos, sem exceção, têm de especial: o maravilhoso dom de se transformar para melhor.

 - Nilsa Alarcon e J. C. Alarcon

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

''O Amor e Outras Crueldades''

Há dias assim. Esconsos. Insonsos. Neutros. Acomodados. Dias que só fazem número. Nem deveriam estar aqui., a somar na nossa vida. Não contam para nada. Não nos põem mais cultos, nem mais sãos, nem mais felizes, nem mais emocionados. Não ficam nas nossas recordações. Apenas ficamos mais velhos. Na realidade nem o sentimos. São apenas folhas de calendário. São dias de não sair da cama, não sair de casa, não sair para a vida. Não porque estejamos tristes mas porque nada acontece e ficar na cama pode ser um óptimo programa. Há quem tenha muitos destes dias mas para quem desafia a vida a não os ter por perto, como eu, a sua existência magoa, irrita! É um desperdício de vida, tempo perdido! Estamos num tempo parado, à espera que aconteça. Queremos puxar o tempo do futuro para trás, como uma película de cinema. Ver os frames mais adiantes. E se forem como desejamos, vivê-los agora. São dias de expectativa, de ansiedade, de medo e tensão. São dias completamente desperdiçados. Não deveriam existir. Queimaria momentos da minha existência, anularia os efeitos, positivos ou negativos do que nestes dias fizer. Não pagaria as refeições, a portagem, o combustível. Não receberia chamadas, não responderia a mails. Não sorriria no corredor, nem beijaria o grupo de mulheres que comigo se cruzou. Não despertaria comentários de qualquer espécie nem os emitiria. (perigoso emitir comentários nestes dias de negação!) Não comeria, nem beberia. Não tomaria banhos nem faria a barba. Não faria a cama nem ligaria o computador. Não ouviria as notícias nem seria notícia. Não olharia para nenhuma mulher nem para as estatísticas de resultados. Não chatearia nem me chateariam. Não viveria estes dias, simplesmente! Dava-os, incinerava-os, licitava-os, leiloava-os, atirava-os pela janela, ao mar, ao vento. Lançava-os dentro de um Shuttle para o espaço! E deitava foguetes para celebrar! Mandava-os à Lua, a Marte, à merda! Mandava-os dar uma volta ao bilhar grande, pastar caracóis, ver se eu estou na esquina, ver se chove, dar de comer ao cavalo do D. José, comer o leão do Marquês, dar milho aos pardais, caçar gambuzinos, catar milho. Ir ver se eu nasci!!! Eu não quero estes dias, repudio-os, exilo-os, expulso-os, emigro-os, recambio-os, despacho-os em envelope selado, com lacre, selo de embaixada em mala diplomática, fechada a sete chaves, quatro cadeados e três metros de correntes. Atiro-os ao Niágara, aos crocodilos, ao Vesúvio! Faço-os desaparecer no Tejo com um bloco de cimento atado aos pés, meto-os no cofre do BPN, na declaração de impostos do Amorim! Eu quero me lixar para estes dias. Fiquem-me com eles , eu pago para isso, eu imploro, suplico, ajoelho-me, prostro-me! EU NÃO QUERO estes dias! São os dias que faltam para…, os dias até chegar… os dias do ainda, os dias do nunca mais, os dias das noites. São dias infernais, impostos, exigidos, taxados, cravados, implantados, encravados, pregados, atados, colados, fundidos, selados, amarrados, empalados! São dias que não queremos, não pedimos, não os deveríamos ter . Quando temos controlo sobre o que fazemos podemos valorizar estes dias, dar-lhe utilidade, memória. Mas quando dependemos de terceiro, estes dias poderiam ser entregues a outros que bem falta lhes fariam para viver. Eu estou disposto a fazer um banco de vida, doar dias, vender dois em um, oferecer três na compra de dois, saldar, brindar, fazer um time –sharing. EU venderia a minha alma ao diabo, ser um Fausto, um Dorian Gray e dar ao Demo este tempo. Faria tudo, daria tudo (sobretudo estes dias!) mas tudo, a troco de te ter já aqui!